Cauda Longa

Oito anos atrás, o termo “Long Tail” (Cauda Longa) deu nome ao livro de Chris Anderson (escritor americano e, na época, editor chefe da revista Wired) onde o termo apareceu pela primeira vez. O conceito recebeu esse nome por causa do gráfico que o representa. Nele, são vistos dois eixos: a popularidade dos produtos versus os próprios itens. À medida que a popularidade cai, o gráfico se aproxima do zero, mas nunca toca o eixo pois, ainda que pouca, sempre há uma demanda para esses produtos menos populares. A ideia da cauda longa gerou uma grande repercussão no mundo dos negócios e abordou uma realidade na qual a internet mudaria toda a lógica do consumo e da produção (tanto mercadológica quanto ideias).

Mas como essa realidade é possível? Simples: o mundo físico apresenta limitações que não encontramos no ambiente virtual. Os famosos “espaços nas prateleiras” que Chris Anderson cita em seu livro representam, além das prateleiras em si, locais como lojas de roupas, cosméticos e eletrônicos, por exemplo, que se limitam a oferecer apenas aqueles produtos que “se pagam” com sua grande demanda. São os discos mais novos, os grandes best sellers, os filmes do ano e as roupas da estação que ocupam essas  prateleiras, o que resulta numa grande venda, mas dentro de uma restrita variedade de opções.

A internet, por sua vez, além de não apresentar essa restrição espacial, conta com um número tão expressivo de usuários que torna viável algo impossível no mundo físico: a disponibilização de todo tipo de conteúdo sobre as “prateleiras infinitas” que oferece, sendo ele “lucrativo” ou não aos olhos do mercado financeiro. Em oposição aos “hits” do século XX (aqueles produtos de grande demanda), a internet oferece os “nichos” no século XXI: os espaços que trazem todos esses produtos ofertados na nova lógica de mercado que, de tão abundantes, formam essa grande continuidade no gráfico, a cauda longa.

Além da limitação de espaço, a internet supera outro aspecto do mercado físico: o alcance das vendas. Uma loja distribui o seus (já limitados) produtos num raio espacial de 5Km, por exemplo, enquanto o ambiente virtual possibilita a oferta de  produtos e produções aos usuários em muitas (quando não todas) partes do mundo. Os consumidores da web tem liberdade de procura e de escolha entre suas inúmeras possibilidades, pois nem mesmo os “lixos” (conteúdos que possam ser considerados ruins por algumas pessoas) tomam o lugar das produções interessantes, e não precisam ser deletados.

Com a chegada dessa nova realidade, os comerciantes mais atentos logo descobriram que um número relativamente pequeno (o volume de vendas dos produtos não-hits) multiplicado por um número muitíssimo grande (a quantidade e variedade desses produtos) resulta em um número também muito grande (o lucro dessas vendas). Essa é a lógica pela qual os bons negócios se desenrolam no universo da cauda longa e tendem a crescer ainda mais, já que muitos dos consumidores que não encontram o produto que procuram no mercado de hits buscam-no nos inúmeros nichos da web.

Mas não é só na esfera dos negócios que essa lógica tem grande expressividade. Graças à democratização de várias ferramentas de produção, é possível relacionarmos a cauda longa com o desenvolvimento da ciência e com a livre produção de conhecimento. A partir da colaboração, diversas ideias e projetos de pesquisa puderam ser desenvolvidos com a participação de Pro-Am, uma junção de profissionais e amadores. É o caso do projeto da NASA Mars Clickworkers citado no livro de Anderson: após a divulgação de fotos da superfície de marte capturadas pelas naves Viking, a NASA pediu para que os internautas clicassem em todas as crateras que conseguissem ver e as classificassem como “novas”, “degradadas” ou “fantasmas”. O trabalho, que duraria anos se feito da maneira convencional, conseguiu identificar 200 mil crateras em apenas três meses; e mais: devido ao caráter colaborativo e à média de todos os cliques, esse trabalho amador obteve resultados quase tão precisos quanto se tivesse sido executado por especialistas.

Podemos concluir que aqueles que eram apenas consumidores passivos ganharam a chance de se tornar produtores ativos no ambiente virtual. E nem sempre essa produção busca fins lucrativos, já que muitas pessoas veem na Web um espaço onde podem expressar livremente sua criatividade, sua experimentação e sua vontade de colaborar com alguma coisa, o que pode ser ainda mais proveitoso do que a produção pelo lucro.

E é assim que a internet possibilita essa nova realidade de busca entre uma infinidade de opções num espaço ilimitado e de alcance imensurável. No decorrer de toda a cauda longa do gráfico, é possível que encontremos o que nunca veríamos nas prateleiras limitadas do mundo físico, e é nela também que as diferenças entre “profissionais” e “amadores”, “produtores” e “consumidores” ficam cada vez mais irrelevantes.

                                                                                                                                                                               Clara de Castro

 

Fontes: 

Entenda o que é cauda longa e como a segmentação do conteúdo pode melhorar seus resultados

http://estudandomkt.wordpress.com/2011/12/07/cauda-longa-um-conceito-que-voce-deve-entender/

http://exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/1059/noticias/o-nicho-ainda-e-nicho

ANDERSON, Chris. Cauda Longa, 2006.

Anúncios
Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s